sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

ensaio sobre as formas e as formas

quadrado laranja ultrapassa o retângulo verde-escuro. um cinza com uma esfera vai e volta. um retângulo cinza também vai e volta. um xadrez passa, para e segue. outros e outros retângulos. retângulos ambulantes transitam por um quadro de luz, numa distância que a preguiça impede o cálculo. sobre todos eles, uma estrutura oval se move de maneira que a preguiça também impede que se descreva com detalhes. e lá vai um esférico azul. e um outro retângulo, dessa vez um pouco esférico, preto. e outro e mais outro e mais outro. muito comuns esses retângulos que também são um pouco esféricos. um retângulo com um cilindro enfiado no oval. e outro e mais outro e mais outro. dois retângulos juntos. todos são números e são inúmeros. todos acreditando serem bem mais do que retângulos, esféricos e ovais. todos acreditando que estão indo. todos estão voltando. todos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

aqueles dois

aqueles dois eram fodões
sabiam tudo
mesmo tendo 16
eram distintos, distantes e distópicos
já não mais acreditavam
que um dia os entenderiam
como eram
como eram
como eram?

eram malucos aqueles dois
tinham tudo
mesmo tendo 16
eram diatônicos, dissonantes e atonais
e já não mais necessitavam combinar
e sabiam o que eram
eram distintos, distantes e distópicos
aqueles dois
aqueles dois eram fodões

eram fodões aqueles dois
não tinham carro, não tinham dinheiro
mas tinham tudo que precisavam
e sabiam tudo um do outro
como eram aqueles dois
como aqueles dois eram fodões

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

não escrevo poemas: vomito
é como um porre que tomo
e que de tão forte
com bebida tão ruim
que tudo resolve sair de uma vez

também não elevo a língua ao seu mais alto não-sei-o-quê
é simples e direto: comi algo estragado, vomitei; bebi demais, vomitei
por isso, deixei de comer carne
deixei de beber vinagre
e resolvi que iria tomar soda cáustica

arde, de fato, a garganta
e dá nojo e pânico em quem vê ou sente o cheiro
mas é isso e nada mais
eu não escrevo poemas: vomito
- argh!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Minhas experiências musicais


Há vinte anos venho com a ideia dessa música martelando na minha cabeça. Aos poucos, foi saindo. Está bem próxima de estar acabada e assim que estiver com uma gravação de estúdio, vou postá-la novamente. "Valsa da despedida" é o título provisório.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Para Isabela Mattozo


gagueia e engasga o motor apaixonado - são as borboletas no tanque - e pega de supetão. à sorte, é jogado o motorista num veículo com freios desgastados pelas freadas da história. vontade de acelerar até não dar mais, mas o combustível precisa ser cuidado pra durar todo o caminho. não precisa chegar. aliás, não quer. quer mesmo é seguir e seguir. procurar as vias abertas e percorrê-las. ter um automóvel ao lado, com estilo semelhante e a disposição de continuar o acompanhando, ora um na frente, ora outro, ora ao lado. e as borboletas se alvoroçam, em ambos. muitos outros veículos se aproximando, alguns dando sinal de luz em reverência, outros, bem poucos, baixando a luz em sinal de reprovação. o caminho segue até o ponto de os dois estacionarem lado a lado, as portas totalmente abertas, na mesma garagem cheia de bicicletinhas coloridas
sem ponto final
sem fim

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

saiu de casa passando pela porta da frente. sem rumo, caminhou nas ruas iluminadas pela lua cheia. não chegou a lugar algum, mas o trajeto fez pensar, ajudou a dar ideias e botou a pontuação em ordem, organizando o texto mental. depois de algumas horas, resolveu voltar pra casa, mas não encontrava o caminho de volta. esqueceu de levar o fio e as migalhas de pão. andou muito e parecia que se afastava cada vez mais do objetivo. tentou o norte, o sul, o leste, sempre em vão, porque não entendia as direções para escolher a que melhor serviria. decidiu sentar e admirar o céu. perdeu-se em pensamentos por horas. acreditava que o sol iria ajudar a encontrar o rumo ao amanhecer. ledo engano. o dia foi ainda de mais desorientação. depois de 24 horas de procura, acabou passando na frente da própria porta e não a reconheceu. não foi capaz de reconhecer a própria casa. seguiu caminhando, dessa vez tentando fazer o caminho oposto, mas já não lembrava da rosa nem dos ventos. tropeçou numa pedra e bateu a cabeça. uma figura meio humana meio demônio lhe apareceu ao despertar do desmaio e indicou uma direção. seguiu os conselhos, mas já era tarde demais. a lua agora já tinha outro formato e uma dor insuportável na cabeça veio para atormentar. agora vive por aí, à procura da besta que lhe indicou um caminho mais perdido que todos que havia tentado. cada vez que a lua enche, enche a cabeça com a esperança de voltar ao corpo perdido do lado de dentro da porta de casa.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

respirar.fundo.sem.se.afogar.com.o.ar pesado do entorno e estontear por causa do gás do ar condicionado é agoniante. pensar que isso tudo não passou ou que não passará em breve e perceber já não há harmonia nas conexões neurais e verbais é um peso. encher os pulmões de perfume não trará essa harmonia. plurissignificar uma expressão concreta e metaforizar tudo é um hábito poetizador falido que desaproxima o espelho e a multidão. glorificar a ascendência brutal e tratar a experiência bruta como matéria prima reservaria ao signo uma brecha para refazer tudo. é preciso refazer tudo. desde o começo. do zero. respirar.fundo.sem.se.afogar.com.o.ar pesado do entorno e estontear por causa do gás agonia. pensar que isso tudo é dejeto e rejeito. encher os pulmões de um odor apodrecido. é melhor recomeçar do zero.

domingo, 11 de dezembro de 2016

aí vão as minhas últimas palavras: mais digno que a boca que profere é o gesto que aprisiona o sentido; o gosto da impotência é mais libertador que a possibilidade de tomar partido só pelo prazer de estar com a razão; a sinceridade não passa de uma representação convincente. jamais chegarei ao pó, mesmo que tenha sido feito dele. não é possível sobreviver às agonias da impossibilidade, a menos que se consiga convencer o contrário do contrário. e não, não estou falando em vitórias ou em objetivos: estou falando de objetos. estou falando que a linha perigosa que separa a eternidade da indisponibilidade do calendário é a mesma que junta o umbigo ao cóccix. a mesma força necessária às atividades profissionais é aquela que esmaga e sufoca. a vida é assim e por isso nos retiramos todos. por isso, não sobra ninguém.
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