sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

ensaio sobre as formas e as formas

quadrado laranja ultrapassa o retângulo verde-escuro. um cinza com uma esfera vai e volta. um retângulo cinza também vai e volta. um xadrez passa, para e segue. outros e outros retângulos. retângulos ambulantes transitam por um quadro de luz, numa distância que a preguiça impede o cálculo. sobre todos eles, uma estrutura oval se move de maneira que a preguiça também impede que se descreva com detalhes. e lá vai um esférico azul. e um outro retângulo, dessa vez um pouco esférico, preto. e outro e mais outro e mais outro. muito comuns esses retângulos que também são um pouco esféricos. um retângulo com um cilindro enfiado no oval. e outro e mais outro e mais outro. dois retângulos juntos. todos são números e são inúmeros. todos acreditando serem bem mais do que retângulos, esféricos e ovais. todos acreditando que estão indo. todos estão voltando. todos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

aqueles dois

aqueles dois eram fodões
sabiam tudo
mesmo tendo 16
eram distintos, distantes e distópicos
já não mais acreditavam
que um dia os entenderiam
como eram
como eram
como eram?

eram malucos aqueles dois
tinham tudo
mesmo tendo 16
eram diatônicos, dissonantes e atonais
e já não mais necessitavam combinar
e sabiam o que eram
eram distintos, distantes e distópicos
aqueles dois
aqueles dois eram fodões

eram fodões aqueles dois
não tinham carro, não tinham dinheiro
mas tinham tudo que precisavam
e sabiam tudo um do outro
como eram aqueles dois
como aqueles dois eram fodões

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

não escrevo poemas: vomito
é como um porre que tomo
e que de tão forte
com bebida tão ruim
que tudo resolve sair de uma vez

também não elevo a língua ao seu mais alto não-sei-o-quê
é simples e direto: comi algo estragado, vomitei; bebi demais, vomitei
por isso, deixei de comer carne
deixei de beber vinagre
e resolvi que iria tomar soda cáustica

arde, de fato, a garganta
e dá nojo e pânico em quem vê ou sente o cheiro
mas é isso e nada mais
eu não escrevo poemas: vomito
- argh!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Minhas experiências musicais


Há vinte anos venho com a ideia dessa música martelando na minha cabeça. Aos poucos, foi saindo. Está bem próxima de estar acabada e assim que estiver com uma gravação de estúdio, vou postá-la novamente. "Valsa da despedida" é o título provisório.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Para Isabela Mattozo


gagueia e engasga o motor apaixonado - são as borboletas no tanque - e pega de supetão. à sorte, é jogado o motorista num veículo com freios desgastados pelas freadas da história. vontade de acelerar até não dar mais, mas o combustível precisa ser cuidado pra durar todo o caminho. não precisa chegar. aliás, não quer. quer mesmo é seguir e seguir. procurar as vias abertas e percorrê-las. ter um automóvel ao lado, com estilo semelhante e a disposição de continuar o acompanhando, ora um na frente, ora outro, ora ao lado. e as borboletas se alvoroçam, em ambos. muitos outros veículos se aproximando, alguns dando sinal de luz em reverência, outros, bem poucos, baixando a luz em sinal de reprovação. o caminho segue até o ponto de os dois estacionarem lado a lado, as portas totalmente abertas, na mesma garagem cheia de bicicletinhas coloridas
sem ponto final
sem fim

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

saiu de casa passando pela porta da frente. sem rumo, caminhou nas ruas iluminadas pela lua cheia. não chegou a lugar algum, mas o trajeto fez pensar, ajudou a dar ideias e botou a pontuação em ordem, organizando o texto mental. depois de algumas horas, resolveu voltar pra casa, mas não encontrava o caminho de volta. esqueceu de levar o fio e as migalhas de pão. andou muito e parecia que se afastava cada vez mais do objetivo. tentou o norte, o sul, o leste, sempre em vão, porque não entendia as direções para escolher a que melhor serviria. decidiu sentar e admirar o céu. perdeu-se em pensamentos por horas. acreditava que o sol iria ajudar a encontrar o rumo ao amanhecer. ledo engano. o dia foi ainda de mais desorientação. depois de 24 horas de procura, acabou passando na frente da própria porta e não a reconheceu. não foi capaz de reconhecer a própria casa. seguiu caminhando, dessa vez tentando fazer o caminho oposto, mas já não lembrava da rosa nem dos ventos. tropeçou numa pedra e bateu a cabeça. uma figura meio humana meio demônio lhe apareceu ao despertar do desmaio e indicou uma direção. seguiu os conselhos, mas já era tarde demais. a lua agora já tinha outro formato e uma dor insuportável na cabeça veio para atormentar. agora vive por aí, à procura da besta que lhe indicou um caminho mais perdido que todos que havia tentado. cada vez que a lua enche, enche a cabeça com a esperança de voltar ao corpo perdido do lado de dentro da porta de casa.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

respirar.fundo.sem.se.afogar.com.o.ar pesado do entorno e estontear por causa do gás do ar condicionado é agoniante. pensar que isso tudo não passou ou que não passará em breve e perceber já não há harmonia nas conexões neurais e verbais é um peso. encher os pulmões de perfume não trará essa harmonia. plurissignificar uma expressão concreta e metaforizar tudo é um hábito poetizador falido que desaproxima o espelho e a multidão. glorificar a ascendência brutal e tratar a experiência bruta como matéria prima reservaria ao signo uma brecha para refazer tudo. é preciso refazer tudo. desde o começo. do zero. respirar.fundo.sem.se.afogar.com.o.ar pesado do entorno e estontear por causa do gás agonia. pensar que isso tudo é dejeto e rejeito. encher os pulmões de um odor apodrecido. é melhor recomeçar do zero.

domingo, 11 de dezembro de 2016

aí vão as minhas últimas palavras: mais digno que a boca que profere é o gesto que aprisiona o sentido; o gosto da impotência é mais libertador que a possibilidade de tomar partido só pelo prazer de estar com a razão; a sinceridade não passa de uma representação convincente. jamais chegarei ao pó, mesmo que tenha sido feito dele. não é possível sobreviver às agonias da impossibilidade, a menos que se consiga convencer o contrário do contrário. e não, não estou falando em vitórias ou em objetivos: estou falando de objetos. estou falando que a linha perigosa que separa a eternidade da indisponibilidade do calendário é a mesma que junta o umbigo ao cóccix. a mesma força necessária às atividades profissionais é aquela que esmaga e sufoca. a vida é assim e por isso nos retiramos todos. por isso, não sobra ninguém.

domingo, 30 de outubro de 2016

ensaio sobre a prisão

na frente da minha janela passa o asfalto
o concreto, seco e masculino, andarilho
dançam as faixas coloridas
e as plantas nas janelas
como um cartão postal urbano
na desaflição de um dormingo sono-lento
- não! o jogo de palavras veio depois do das imagens, então, já não era novidade antes
- caramba! a gente decide despirocar na semana pra empirocar no domingo - ou empiroca no domingo pra pegar embalo e empirocar na semana seguinte -
Zé na semana, rei no domingo - sensação comprada

no asfalto da frente da minha janela passam os frenesis
o concreto que resiste às fissuras
a secura do cimento macho-hipster que quer cobrir as faixas
e o tempo que tenta não deixar as flores se ensolararem
- segunda-feira frenética, terça-feira de azia, quarta-feira mal dormida, quinta-feira alérgica, sexta-feira de pensar que vai, sábado é ilusão

tudo passa na janela
não convido nada pra entrar

terça-feira, 4 de outubro de 2016

a carvão

laranja eletrônica
maçã informática
banana digital
salada de frutas nas nuvens

culinária a carvão

café virtual
cigarros eletrônicos
cachaça nanotec
vícios digitais

tratamentos a carvão

poema a carvão
poema a carvão
poema a carvão
poema a carvão

leitores clonados in the clound




sexta-feira, 16 de setembro de 2016

vá pra porra!

assiduidade é a palavra chave
ora! vá pa porra!
e que leve a pontualidade junto
e os compromissos
e a necessidade de estar sempre de dieta
e o gosto de torcer pro time vencedor
e a obrigatoriedade de ter sempre algo pra fazer
só não leva essa vontade
de estar sempre em outro lugar
e o prazer de procrastinar

me deixa encher a cara
me deixa começar a frase com pronome oblíquo
e me deixa enforcar o banho
não me enche o saco com tanto formalismo
tantas formalidades

e agora deixa eu ir, que já estou atrasado
e não quero faltar

domingo, 11 de setembro de 2016

já é noite e não podemos nos omitir. mas também não precisamos tomar posição em tudo. há que se encontrar um meio terno, um salvo-conduto, uma assimilação por instabilidade. há que se organizar as coisas para agradar ao caos. alimentar o caos com a ordem das coisas, inclusive. esvaziar as palavras de significados e depois preenchê-las de volta, como quem faz cópia de segurança e depois formata e restaura um sistema. mas a restauração precisa ser instável. precisa ser escrita sem revisão, de forma corajosa, dinâmica e inesperada. há que se fazer tudo de uma vez, sem olhar pra trás e sem pensar se vai dar certo ou não. se bem que sempre dá certo, principalmente quando dá merda. mas já é noite. é noite e há que se desestabilizar tudo pra que o caos venha em explosão. pra que a ordem seja o jantar do caos. é noite. vamos dormir!

el corazón jodido

"el humo que te molesta
y el fuego que me quema a los dedos
mi compa, mi seguridad" - podría decir la canción
pero
"todo cambia", ha dicho un poeta común
pero ni todo cambia - digo yo
- algunas cosas quedan como son
siempre
y siempre
es como si fuera el centro del radio de una rueda
que gira, gira y gira
pero no llega al futuro, ni retorna
y que a nosotros hace estornudar
quemados, con el rostro roto
y el humo a molestar la nariz
y el corazón jodido

quinta-feira, 28 de julho de 2016

fotografia

na fotografia estão todos da família. é uma quantidade grande de gente. mãe, outra mãe, o pai biológico, o pai adotivo, a filha e seus dois irmãos, o filho e suas três irmãs. os menores, sentados nas costas do sofá de três lugares, enquanto os adolescentes estão nos braços do móvel, quatro dos adultos estão nos assentos e um mais engraçadinho deitado aos pés dos demais, fazendo pose com o cotovelo no chão e a mão escorando a têmpora esquerda. alguns copos e taças, dois gatos ou duas gatas nos colos dos pais. ao fundo, um quadro com a pintura em grafite com cada rosto da família, desde a bisavó, na idade de quando veio do Uruguai. o tapete branco, com algumas listras, demonstra que deve ter sido pisoteado bastante antes da foto ser tirada. inclusive, há uma generosa mancha de café próxima ao cotovelo do engraçadinho. a parede onde está o quadro também apresenta uma bela imagem abstrata formada pelos raios alaranjados de sol filtrados pela cortina, provavelmente de uma janela lateral.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

outro dia

sem ideias, partiu para procurar novos textos para escrever. percorreu o mundo inteiro na viagem à volta do quarto e viu sua loucura e sua lucidez andando juntas, de braços dados. foi dormir. acordou melhor e sem ideias.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

silêncio

lá vamos nós ao silêncio. um silêncio. nada mais importante do que um silêncio de vez em quando. tocar uma música, ouvir uma música sendo tocada por alguém e deixar o som tomar conta do ambiente e, logo em seguida, um silêncio. e lá vamos nós.
cada nota com sua intensidade
cada ruído com seu significado
aliás, o som pode muita coisa
e lá vamos nós ao silêncio. um silêncio. a cada instante em que o silêncio se manifesta, a cada momento em que o silêncio, tudo fica muito mais intenso, tudo significa mais. o silêncio pode mais.
e lá vamos nós

quinta-feira, 7 de julho de 2016

do tudo ao nada quase não há distância

lá vamos nós outra vez. e sempre outra e sempre outra e sempre outra vez, numa eterna busca ao que não se sabe e num eterno não encontrar. lá vamos. viajando em movimento elíptico, com eventuais retornos em linha reta, de forma que a matemática precise de um esforço grande para nos compreender e, ainda assim, chegando a grandes falhas. a matemática da angústia eterna pelo entendimento sutil. programas de computador não alcançam simular essa eterna busca, esse eterno desencontro. mas de vez enquando uma linha reta vem e leva tudo para quase o ponto inicial. e depois vem o movimento elíptico. e a matemática... e a física... e os programas de computador... e lá vamos nós outra vez.

sábado, 2 de julho de 2016

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há uma dureza constante
uma vontade de degenerar
pintar-se com a cor que ninguém tem
deslocar-se do conjunto para o unitário
desgarrar-se

dureza constante

insatisfação

fumaça constante

a dureza da fumaça

degenerar-se

uma vontade

quarta-feira, 29 de junho de 2016

vídeo para leitores

vídeo em plano-sequência:
trilha sonora: Pitágoras, d'Os Mutantes
plano geral
um homem negro de idade avançada está sentado num banco de praça, com a câmera posicionada às costas.
câmera se movimenta em travelling em direção ao homem, enquadrando-o com o banco, parando por alguns instantes para mover-se e posicionar-se em diagonal, quando retoma a aproximação até chegar ao enquadramento entre o quadril e a cabeça do homem, onde nota-se que está com olhar perdido em direção ao chão, como se olhasse sem ver os tornozelos das pessoas que passam no outro lado do passeio.
a câmera vai se afastando lentamente até retomar o plano geral, mas agora frontal ao homem. segue em movimento lateral, como se a praça estivesse em movimento, até chegar ao corpo de uma mulher negra, jovem, seminua, deitada no gramado em posição fetal. a imagem para na mulher por um tempo menor do que parou no homem e segue um pouco mais, até passar o final da praça, atravessar a rua e para para focar um prédio histórico em plano geral.
novo travelling e a imagem vai aproximando do prédio, onde destaca-se uma pixação: "essa matemática não nos serve"
a imagem vai escurecendo em fade-out.

terça-feira, 28 de junho de 2016

as fissuras da arte

colado com silvertape está a rotina, especialmente quando ela vem com o peso de um suspiro contínuo e cristaliza os líquidos que guardarão os quadros expostos no museu e têm fissuras capazes de derrubar as estruturas. nada é fragilidade além do mito, a não ser o próprio mito. além de frágil e fissurada, a estrutura que já foi líquida, foi cristalizada e agora é enjambrada, será um dia um punhado de confusões e confissões. e no fundo, no fundo, toda obra de arte é meio mausoléu e meio maternidade: somos mortos falando com outros mortos! e tudo, absolutamente tudo está colado com silvertape.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

improviso para quintana

escrevo a seco, sem pensar ou revisar
e chovo no molhado
é um inferno isso!
uma prisão de temas e estilos
que não se mancam
e que não se mandam

por isso, ao procurar renovar as coisas
venho nessa de não revisar
o máximo que sai e um erro ortográfico
uma escrita confusa

ainda assim, não me conformo
e escrevo a seco
mesmo chovendo no molhado
porque se vive a seco
escrevendo o que já tá escrito
- bebendo o que todos bebem
e comendo o que todos comem,
gritando como um possesso numa partida de futebol
e desconfiando que a minha alma seja mesmo dessa prisão
desse inferno!

domingo, 26 de junho de 2016

Decreto

Decreto editado na origem do ser humano, que pra alguns é na Gênesis e pra outros a explicação exata ainda causa questionamentos:
Eu, decididor eterno, fixo e inquestionável, independente do que as ciências vierem a descobrir e comprovar publicamente no futuro, decreto:
Cap. I. Quando a voz e a posição é do oprimido, estamos tratando de pregação ideológica;
Cap. II. Do contrário, quando estamos tentando abafar a voz do oprimido com ideias que datarem de séculos anteriores, estamos tratando de como as coisas são, sempre foram e sempre deverão ser, quer os marxistas queiram, quer não;
§ 1º. Ao contrário do que venha a comprovar a linguística sobre a modificação de sentido dos termos através dos tempos, a grafia e o significado primeiro da expressão é a que deve valer, por questão de decisão divina;
§ 2º. Nenhum esquerdista marxista terá autoridade de questionar o teor deste decreto. Quando tentar fazê-lo, deverá ser condenado a receber críticas de maneira superficial, sem citação a obras, nem indicações de leituras de forma objetiva.
Cap. III. Nenhuma fonte de citação poderá ser mais válida do que a seguinte expressão: "Basta uma procura no google..." que pode ser substituída a qualquer excerto retirado da página da wikipedia sobre o assunto.
Cap. IV. Fica proibida a existência de qualquer dúvida. Quem problematizar quaisquer temas abordados neste decreto será condenado ao tratamento dado aos marxistas, conforme o § 2º do Cap. II.
Este decreto entra em vigor na data de sua publicação, ficando quaisquer disposições contrárias futuras previamente revogadas.

sábado, 25 de junho de 2016

um vídeo


numa festa, uma tomada em plano geral
corta para uma tomada em que há duas pessoas conversando, sendo que a imagem está enquadrada somente no peito das personagens, sem mostrar os rostos
ambos guardam um do outro a distância de um palmo
durante alguns instantes, têm-se a impressão de que ambos irão se abraçar
mas depois de alguns segundos, afastam-se
som de tiro
ambos se encontram e se abraçam
ambos caem
a imagem escurece lentamente em fade-out

sexta-feira, 24 de junho de 2016

manifesto pelo estabelecimento do caos

tudo podemos nessa vida que nos é posta. absolutamente tudo. o único inconveniente é a falta de habilidade que temos pra lidar com as possibilidades e relacioná-las às vontades. fora isso, nada é impossível ou inviável. e é sempre bom lembrar que a vontade nos libertará. só a vontade é capaz de demonstrar o caminho que nos retirará da ordem, do amor frustrante e do progresso opressor. nada mais glorificante, mais libertador e mais motivador do que o amor febril e o caos interior. reprimi-los é tornar as pessoas menores. libertemo-nos pelas vontades! a força está nas vontades!

um louco e seus inúmeros

já me disseste certa feita
que eu estava endoidecendo
querendo essas coisas que não se deve querer
fugindo do mundo
fugindo de todo mundo
e eu acreditei
como acredito até hoje

só porque eu perco o controle
remonto
desmonto
e quebro
só porque ocupo
radicalizo
e caio da cama

e a cada dezesseis, eu preciso vinte
a cada figura, eu quero doce
a cada doze eu quero um

só porque eu estou mesmo endoidecendo
já faz tempo que fujo
e acredito
perco o controle
perco os doze e os doces
e como um pixel de cada vez



quarta-feira, 22 de junho de 2016

poema ridículo, sem filtro e sem revisão

fingidor é o caralho, Fernando!
gosto muito do que escreves e concordo com muitas coisas
- como a tua ideia fingida sobre as cartas de amor
mas fingidor é o caralho!
me vejo poeta e não consigo falar da dor que não sinto,
senão da que sinto
tanto que não finjo ser outro, ou outros,
sou eu, eu mesmo
Alexandre Antonio
quem escreve sobre a língua suja de poeira
de labirintos de onde não consigo sair
de poesia
de arte
de museus e de livros

nisso, sou mais próximo ao Glauco
que é o cego que se vê
que não finge
que tem nome artístico, mas que é ele mesmo

sou mais chegado ao Sá-Carneiro
que não fingia
e que mostrou isso ao final das contas

mas ainda assim
concordo com as cartas de amor
que fingiste ser de outro
a ideia de serem ridículas
assim como este poema

terça-feira, 21 de junho de 2016

sobre os desejos de liberdade

lambi o chão noite passada. tinha algo me incomodando bastante na língua e eu não encontrei outra forma de tirar. então, procurei um lugar bem debaixo do tapete da sala, levantei a beirada e dei aquela lambida com gosto. claro que o gosto é horrível, que fica aquele pó nojento grudando na língua, mas ao mesmo tempo a sensação do alívio, do inusitado e até um sabor de redenção faz com que valha a pena. óbvio que precisei lavar bem a boca depois, escovar e escovar dentes e língua, mas a possibilidade de fazer o que a maioria das pessoas acha deprimente, de fazer o que quase todo mundo considera motivo de internação, e de dizer "na minha língua mando eu!" é bem mais importante do que as convenções sobre quem deve, pode ou não lamber o que bem entende. já lambi umbigos, pescoços, queixos, coxas, nádegas, entranhas e o que bem quis nessa vida, tudo com delicioso prazer, mas o chão da sala de casa é a primeira vez que o faço. não, não estou comparando. o corpo de uma pessoa é algo límpido, belo, saudável e só apresenta algo de positivo e prazeiroso. por exemplo: jamais eu tiraria algo que me incomoda na língua passando-a numa coxa, num quadril, num ventre. portanto, a motivação é outra, mas o movimento é semelhante. já o chão da sala é outra coisa. aliás, é coisa. e lamber coisas pode me fazer livre!

domingo, 19 de junho de 2016

dos labirintos e processos

não sei por que, mas tenho minha imaginação tem me apresentado a imagem de um labirinto, daqueles que vão se fechando a cada vez que a gente avança. lembrei de um sonho que tive certa feita. estava naqueles labirintos de ciprestes, bem no centro dele. à medida em que eu encontrava um meio de avançar em direção à saída, as paredes iam se movendo de forma que me deixavam no centro novamente. eu andava, andava, passava por várias passagens e os ciprestes também andavam e fechavam de maneira que o desenho em minha volta ficava idêntico ao do início. parecia metáfora. parecia que isso tentava me avisar de algo, mas não entendo bem. e eu tinha a sensação de que precisava muito sair dali porque havia algo fascinante do lado de fora e ali dentro eu não teria nada mais do que já havia vivenciado. não sei, mas tenho a impressão de que era uma metáfora para o meu tempo. talvez fosse uma metáfora pra minha dificuldade em mudar de direção, mas não sei ao certo. ou talvez as metáforas sejam muito explícitas pra o que eu experimentei no sonho. mas lembro de algo inusitado também: num determinado momento, tentei andar pra trás, como quem não quisesse sair do labirinto, e me deparei com um espelho. todo trincado, ele me revelava um outro de mim, só que muito envelhecido, com a mesma roupa, os mesmos calos, o mesmo nariz e a mesma insegurança no olhar. seria bem melhor se não tivesse olhado nesse espelho. ou o melhor foi realmente ter me visto, porque depois disso, ganhei motivação pra sair do labirinto. na verdade, fiquei com muita vontade de atear fogo no labirinto e sair logo, mas já o estava considerando como meu espaço. e era estranho o gostar dali, mas precisar e querer sair sem nunca mais voltar. mas no fim das contas, tenho certeza de que tem algo de muito melhor do lado de fora, embora o caminho e a tentativa também caia muito bem.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

fórmula para fazer avançar a humanidade

existem mistérios bobos, aos quais a gente perde tempo em não tentar desvendá-los, porque nos faria um bem gigantesco. seria algo que nos elevaria a um outro patamar de humanidade. veja bem, quando eu digo mistérios bobos, me refiro a coisas que a gente não se importa em não saber, ou até não quer saber, ou ainda faz questão de não saber, mas que são tão básicos, tão elementares, que nos faz uma falta tremenda tê-los desvendado. não sei se estou me fazendo entender, mas é isso. acho que essa é uma das grandes verdades. grande não, das imensuráveis verdades. daquelas verdades que beiram o absoluto. precisamos desvendar os mistérios bobos. precisamos da procura pela solução dos mistérios bobos. só assim a humanidade conseguirá tornar-se uma outra civilização.

revolução la tente

um litro de querosene
um frasco de perfume
duas partes de água turva
meia dúzia de sabores

meia garrafa de veio
uma folha e meia de arlequin
mais uma gota de parnasio
colher à colher um pouco de meu

um cali-se de atenuantes
e meia hora de fuga
separa tudo
em banho frio
centrifuga, enxuga
e guarda
e guarda
e guarda
e guarda
sentido!

mas deixa o querosene pronto
próximo ao perfume
pra caso o fogo-maria se agite

segunda-feira, 13 de junho de 2016

ode à lisergia febril

não lamento a nossa febre, pois é ela que nos faz ver melhor. veja bem, não estou dizendo que gosto de estar molesto e que prefiro que estejas com as mesmas dores, mas sim que essas dores e essa moléstia toda deverá nos queimar coisas internas e tornar nosso interior mais leve, com o ar quente. é por isso que venho te convidando tanto para pisarmos descalços no chão úmido e pra pular no mundo ou correr até o suor escorrer e depois um banho frio, ou o vento frio. não lamento nossa febre por isso. também quero ver até onde vai. até onde a temperatura elevada dos nossos corpos nos deixará sóbreos e quando começaremos a viver o transe, do qual gostamos tanto. é a febre que vem pra nos curar e nos fazer viver! mas não só a febre. o calafrio que aproxima a gente, os cuidados que recebemos dos olhos alheios, atentos aos nossos movimentos, mas com a maravilhosa condição de não nos culpar pela febre, não nos julgar por termos andado descalços, nem pelo nosso suor e o frio.

um inverno interior

volta volta volta
roda
e sai

aprenda logo
caia da cama

pesa
e cai
e cai e cai e cai


sono profundo
frio intenso
dorme tranquila

volta volta volta
cobre
e respira fundo
está tudo em paz
ou deveria

e tudo pesa

domingo, 12 de junho de 2016

ensaio sobre os pés descalços

viu que a porteira está aberta? então, vamos! não perde tempo, menina! vem comigo! vamos aproveitar e derrubar o que tem atrás, o resto a gente vê depois. precisamos disso, precisamos passar pra lá e experimentar o campo verdinho, sair desses pedregulhos que machucam nossos pés descalços. vem comigo! pense que amanhã, de manhã, a felicidade vai desabar sobre nós! vem! eu tô indo e queria que viesse junto! é um convite! vem? vem logo! isso! vamos passear por ali e ver o que acontece, já que por onde andamos até agora a gente sabe que é tudo limitado! vamos romper com isso! do outro lado, pode ser que os limites nem existam ou sejam inalcançaveis pra nós! já pensou que maravilha? vamos correr por tudo, pisar na grama, pular no lago, dormir na sombra! talvez até tenha mais gente como nós que precise de mais gente como nós! vamos? vem junto! aqui, do meu lado! vem?

sábado, 11 de junho de 2016

à luta

leve
me leve
me eleve
e levo
elevo
tudo comigo
tudo contigo
e nós como um só
em dança
em canto e coxia
afestemos os fantasmas
e esses sonhos
sejamos um só
vamos?

sexta-feira, 10 de junho de 2016

tudo pronto até o tranco

meus poemas estão prontos pra serem ditos
embora não digam nada do que eu queria
e sejam meros amontoados de palavras sem sentido
mas são meus e eu gosto deles desse jeito

assim sendo, assumo o fardo que me foi dado
de ser obrigado a carregar esse absurdo todo
de ter uma quantidade robusta de coisas representadas
precisando da desordem na qual faço questão de deixá-las

tomei um impulso e fui bloqueado
quando queria botar tudo no papel
senti um tranco
como quando a gente é amarrado a uma corda e corre até esticá-la num tirão só
e esse tranco
esse tirão de corda esticada
confundiram ainda mais
e levaram a excência de tudo embora
embora tenha percebido certa ordem

mas os poemas estão prontos
basta a desordem comandar os movimentos
e lá vão as palavras ao vento
ao papel
à tela do computador
após a corda ser roída pelo lado mais fraco

confissional em processo

confesso
minhas rimas são postas a fórceps
e vou ficando mais habilidoso com os equipamentos nesse meio tempo
costumo juntar tudo que não se ajusta
numa coisa só
é minha mania de querer colar uma maçã numa nuvem
mas fica divertido, porque acabo passeando bastante enquanto isso
avião pra lá e pra cá
e fumaça branca nos olhos

não havia pensado

Antes de começar a contar a história que envolve este post, preciso falar uma coisa. Tô tentando ler o roteiro da minha vida, mas cada vez me sinto mais analfabeto. Não sei se as coisas estão mal escritas ou se eu não entendo o contexto e onde a coisa toda vai chegar, se é que vai chegar. É muito confuso. Parece uma cena de Monty Python, mas com bem menos humor e sentido. As linhas tortas e cheias de pontas duplas me complicam e enredam cada vez mais as coisas pra mim. Pra dar uma ideia, estou tentando tomar um copo dágua, mas tenho a impressão de que quero mesmo é comer uma salada de batata. Só que o que se me apresenta é uma barra de manteiga que se derrete ao contato com os meus dedos. É estranho isso. No fim, o que desejava, recebo. Tenho tentado até mudar de assunto, pular páginas, voltar as cenas, apagar frases e expressões, mas cada vez mais eu mergulho numa leitura que não faz sentido algum. E o que é mais curioso: está me dando um enorme prazer! Tenho vivenciado o prazer de saber que eu não tô entendendo nada do que tá acontecendo, do que já aconteceu e do que poderá até jamais acontecer. Sim! É delicioso se sentir analfabeto! A gente não tem compromisso com nada! Por exemplo: se eu for analfabeto, não terei compromisso de seguir o roteiro que tenho em mãos agora. Posso não reescrevê-lo, nem compreendê-lo, mas posso solenemente ignorá-lo. Concorda? Pois bem, sinto-me prazeirosamente analfabeto! Outro exemplo: a gente pega um grupo de pessoas e bota numa sala. Pede pra que essas pessoas imaginem um assassinato que não envolvesse legítima defesa, mas que envolvesse as emoções do assassino. Pede pra que cada uma delas escreva num papel, sem deixar que os outros vejam, qual punição deveria ser aplicada ao assassino e que entreguem a resposta escrita. Na sequência, pede pra essas pessoas comentarem suas respostas aos demais, porém, isso só poderá ocorrer quando elas receberem, por escrito e em sigilo, o nome do assassino (onde, por pura diversão, constaria que cada pessoa fosse o assassino da sua história). Imaginemos se a punição que cada um previsse por escrito seria a mesma que houvesse comentado após saber da autoria do crime. Eu, particularmente, prefiro ignorar essas coisas, mas a leitura do roteiro da minha vida tem me deixado curioso pra saber como eu agiria num momento como esses. E é o mesmo caso da água.
Tudo muito estranho e incomunicável.
Mas deixemos a digressão de lado e vamos à história. E como já comentei algumas coisas no parágrafo anterior, vou narrar tudo de uma forma muito breve:
Estou brigado com o destino porque ele só me bota num caminho interessante depois que eu já o escolhi. E acho que já disse tudo.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

conserto com cetro


não tô
tava
tando

fui
fuímos
vuelvo
y me voy

leve
pluna
lleva
y rellena

pesa
pisa
quebra
e
vinga

das doses de ficção diárias

já são quatro e desperto
vinte minutos depois, só sonho acordado

tento

não vai

coração acelera

adormeço para o dia
saio para o trabalho
ônibus
carona
sou quase atropelado

acordo numa vitrine colorida
com uma imagem que me incomoda
volto a dormir

ando mais
sonâmbulo que sou
uma sequência de sons desordenados me desperta mais uma vez
fico tentando entender o que isso significa
até a irritação me levar de volta ao onírico

já me perdi nas horas
- durante o sono, perdemos a noção

no caminho de volta, sonho com histórias
- contadas, vividas, vistas por mim

já na cama, desperto
já são quatro e desperto
aguardo vinte, cinquenta, duas
e volto a adormecer para o dia

sábado, 4 de junho de 2016

Cena do amor clandestino de um lunático por Liberdade

não sou nem sombra do que gostaria
pois a carne não satisfaz mais
e falta luz

já não há espaço para respirar
porém, há olhos para julgar
e há olhos para serem lidos

tudo acordado
todos de acordo
todos acordados, então

respira
respira
respira

transmuta, explode, eclode
e volto a ser o que és

voamos, pois
já que só nos resta a fuga
atravessar a fronteira
virar sombra

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A arte morreu, graças a deu

agora temos o sonho, a sufocação da vida e o ar rarefeito da virtude
Os museus escondem a beleza para mostrar sujeita e pornografia
diabolismo penetrante
sexualidade em carvão sobre tela
formas geométricas violadoras
agora temos o torpor, a dispineia desvirtuada e a incomunicabilidade

bolhas de sabão
tudo girando, girando, girando
tontura e cheiro de tinta
fumaça branca
incomunicabilidade e morte
a morte veio de marte - nomina-se um vídeo nonsense

e nomes que confundem a gente branca:
afro? indígena? oriental? árabe? outro? que outro?
como assim, outro?
mulheres que dão e que não dão
e isso não interessa a mais ninguém
tudo girando, girando, girando
coisas gigantes

e a arte, a bela e genial arte, jaz no cemitério de arquitetura neoclá,
no torpor da dispineia que impede a comunicação

quarta-feira, 25 de maio de 2016

honey - 70's in Brazil

to the worst translator
- or do it yourself the translation
and coup!

honey
love me or smash up me the head with a baseball bat
but don't do to love the bat
don't try it to me

honey
everything I wanted was to love you
everything I wanted was to tie you
everything I wanted to do you speak

honey
lucky you to have escaped
before I break your head with this beautiful brick
lucky you're not here
honey

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A simplicidade do subcomunicável

Seria de grande valia se a sinceridade fosse metalinguística e nos ensinasse a aceitar as verdades que nos fariam sinceros. Provavelmente, teríamos um grande avanço nas tecnologias e nas ciências incultas, nas pesquisas com células mortas, nas viagens intergalácticas. Conseguiríamos explicar a heterossexualidade, a ideologia de gêneros textuais e a plurissignificação de uma taça de vinho. A certeza maior é de que o mundo seria mais igual ao que jamais há sido e as populações mais frágeis estariam recebendo suas belas doses de esteróides com bifes de fígado. O tempo derretido sob o ácido que nenhum Salvador Dali da Bahia conseguiria representar em calepsidra digital e que nenhum Baumann conseguiria ~~~~~
Seria de grande valia se a metalinguística fosse mero acaso e nos sujeitasse na medida em que as misteriosas forças do que não está enquadrado nos reconduzissem ao sonho e nos fizessem menos brutais, nos tornando mais sutis, etéreos, esteróides~~~~~
Seria de grande ajuda se a clareza que nos espanta não mais nos usurpasse o sorriso, se o grito de agonia contido fosse transformado em uma gargalhada doce, com sabor de nuvem branca, se o líquido e o vapor comungassem pra nascer um novo estado de loucura, de visões com cores fortes e difusas, porém nos fazendo perceber que é possível encontrar a cura da infâmia, produzir litros e litros de elixir contra a insuficiência, a ciência e intolerância a Lacan ~~~~~

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Ce n'est pas une nouvelles (Ceci ne est pas qu'un plagiat de Magritte)

Magritte pornográfico
disse que não era
depois de por no gráfico
à francesa já tinha
enquadrado a boca torta
- o pior cego é o que não lê
que Magritte pinta e você pita
e como "pinta com'eu pinto"
posnográfico a boca
da leitura revelada

terça-feira, 17 de maio de 2016

50ŋ370

2x8=16
5x5=25
21x5=105
8²=36

3x11=33
7x5=35
√625=25
√256=16

2x10+3=33
(8-3)x5=25
2(15+3)=36

(4x5)+(3x5)=35
(2x4)+(3x5)=23
(20,75x12)-(12²)=105

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Poeta contém porâneo

Vou mudar minha configuração,
diria um poeta descolado.
Deslocado em sua própria condição -
na pretensão de estar-se adaptado

à contemporaneidade que lhe há cercado
dizendo "do comum não quero nada"
e seu nada é tudo tanto igual

Escreveu desconstruindo um soneto
com métrica assimétrica
pé quebrado
e sonoridade dissonante

Quebrou a ordem das estrofes
inventou termos que crostimaram
e quebrou arrima que a sustentava

Inventou continuação
e matou a poesia.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

a nova e necessária busca do novo de novo

o clichê é um chiclete que perdeu o sabor
de tanto mascarar e surrar amoral
do marcado fonográfico


frases desfeitas não enfeitam, mas enfrentam
como um fraseado musical de microtons
é mais valor que mais valia

é preciso abrir mão do de sempre
e é preciso cuspir fora o chiclete
porque é tudo farinha do mesmo asco

o clichê é um livro de etiquetas
que etiqueta quem o lê
chato da porra
que marca e merca
num fraseado como um
que mais vale pra quem valha-te

lugares incomuns transformam
havida como a vida é
como uma tarde na fruteira
ou comum mal secreto

terça-feira, 5 de abril de 2016

O homem tradicional


Atordoado pela própria obediência,
resignou-se à cátedra e à poça d'agua.
Cambaleado pelo trilho do trem,
comprometeu-se com a Gravidade.

Enformado pelas paredes da sala,
acatou a ordem da TV.


Viveu anos assim,
aceitando a moldura e a forma,
a referência e a instituição,
o sagrado e a tradição,
tudo igual aos antepassados,
como quem engole terra
até explodir de tédio.


Depois, cobrou que todas as pessoas fossem assim,
do mesmo jeito que o tinham obrigado a ser.



quarta-feira, 30 de março de 2016

Pior do que nunca


As pedras que quebram vidraças
estilhaçam em partes torpes
das tropas atrapalhadas
aquarteladas da distopia

êh, tradição da traição
êh, família em quadrilha
êh, impropriedade

Os padres que abrem vidraças
e as luzes filtradas pela estúpida nuvem de fumaça
que não entram na escuridão clichê
de um chiclete

êh, ambição da omissão
êh, unha na carne suja
êh, proselitismo

Os pedros que atravessam vidraças
estraçalham nos trapos sobre tapetes
mastigando vidro moído
e pensando que vai livrá-lo do livro

êh, atropelo
êh, unha na tradição
êh, consumercadismo

terça-feira, 29 de março de 2016

Tempo é espaço

o relógio difuso
diante de um vidro embaçado
da janela lateral
acompanhado do reflexo de um velho carvalho
uma parede descascada e com reboco esfarelento

no conta-gotas da calha furada
pingando sobre as latas de tinta seca quase vazias

afastando-se mais

as paredes ganham cores
ringidos dentro da casa caindo
o ruído e a ruína

crianças transparentes correm no quintal
terra barrenta
cheiro a esterco

em plano geral
chuva fina e rala próxima e a caminho
entre a casa e a silhueta dos morros ao fundo
explosão de um pixel
canto borrado

gosto de café






segunda-feira, 28 de março de 2016

Mimimi do ex

Lá se vai a lasciva
com sua atitude de mulher que gosta de ser
Lá se via lasciva
com sua postura de quem detém o poder sobre si mesma
Lá se vaia lasciva
com seu olhar de desdém à minha opinião
Lá se vai à lasciva
com sua boca encarnada e a decisão de aceitar ou não

Lá se vai a lasciva
Lasciva lá vai
Se lá vai lasciva
Lasciva lá se vai


domingo, 27 de março de 2016

Feliz páscoa, Alice

Acordei com um coelho cheirando meu nariz
tinha os olhos vermelhos
ao perceber que o percebi me percebendo
saiu correndo, mas sem pressa excessiva
como quem foge, mas querendo ser visto
tropecei
caí perto da porta por onde o orelhudo recém havia fugido
ao meu lado, docinhos de várias cores e sabores
e uma xícara de chá, onde estava escrito "beba-me!"
resolvi comer um dos doces coloridinhos - uma figura engraçada de um homem com uma cartola na cabeça
depois bebi
adormeci
Acordei com um coelho cheirando meu nariz
tinha os olhos vermelhos
ao perceber que o percebi me percebendo
saiu correndo, mas sem pressa excessiva
como quem foge, mas querendo ser visto
tropecei
caí perto da porta por onde o orelhudo recém havia fugido
ao meu lado, docinhos de várias cores e sabores
e uma xícara de chá, onde estava escrito "beba-me!"
resolvi comer um dos doces coloridinhos - uma figura engraçada de um homem com uma cartola na cabeça
depois bebi
adormeci
Acordei com um cheiro de coelho em meu nariz
tinha os olhos sorridentes
ao perceber que o percebi gargalhando
saiu dando voltas e mais voltas, me deixando tonto
fui atrás e tropecei
caí, também gargalhando, perto dos doces e de uma xícara de chá
onde se lia "sorria, você está se divertindo!"
e o coelho gargalhava e corria na minha volta
e eu tentava acompanhar
comendo docinhos
tomando chá
vi alguns antepassados que me convidavam pra brincar feito criança
que felicidade a minha!
o chão ficou gelatinoso
depois parecia uma esponja
e o coelho correndo na minha volta e gargalhando
e eu gargalhando junto com ele
de repente
tum!
com um golpe sofrido na nuca, senti um líquido vermelho escorrendo pelo pescoço
ouvi uns gritos: - como ousa ser feliz! agora vai aprender a respeitar às leis!
tum!
- isso é pra tu aprendê! vagabundo!
tum!
mais líquido vermelho escorrendo
apaguei
acordei num lugar estranho, sem coelho, mas com uma hiena
que gargalhava, enquanto comia carne em decomposição,
e que me gritava: - vagabundo! ser feliz não pode! como ousa não tê carro! não querê casa com piscina! vagabundo!
percebi que estava nu
com o corpo todo arranhado
cheirando mal
enquanto isso, vi outras hienas começarem a chegar
todas gargalhando e apontando:
- destino de vagabundo é esse mesmo!

sábado, 26 de março de 2016

Revolte-se

Suave é o sono, quando a gente dormiu pouco
enquanto aguarda a aguardente fazer efeito
feito um condenado a contar as horas

Suave é o sonho, quando a gente quase dorme
parece alucinógeno
parece fumaça branca

Suave é o som, quando a gente respira profundamente
quando faz o peito silbilar
ou disfarçar o ronco

Suave é viver na ilegalidade da palavra
onde o que se diz muitas vezes é contrário
e o verbo derruba o fato

Suave é o ronronar do gato
enquanto observa o pássaro pousar
e planeja a caça

Quanto custa o barato?


Quanto custa aquilo?
Quanto custa a chegar?
Lembra quanto custa?
Sabe quanto custa?
Deve custar quanto?
Figuras doces custam caro
Mas o barato sai caro
E o doce derrete
Tudo
Tudo derrete na boca
Na rua
Na chuva
Na chuva de prata que cai
Sem parar
Quanto custa?
Quanto custa essa chuva de prata?
Lambendo os beiços
Salivando pelo doce
Doce derretendo tudo
Virando chuva
O barato sai caro

sexta-feira, 25 de março de 2016

Plural é saber

cada vez que me cento
e vinte por mil
o assento do sanitário se transforma
a cada ver que o certo
é vinte por quinze
são dezesseis e vinte
e os verbos eu os confundo com os números
que numeram verbo e verbos
num ponto torto
cada vez que sento
é vinte por meu
há centos de insanos
transformados em números
em cada único
em vários pluri
nada é confuso
mas tudo é solidão e multidão
singular e plural
ordinário e indicativo
cada vez

Mal súbito

passei anos sofrendo de um mal súbito
que de repente veio chegando
e aos poucos me surpreendendo
cada dia um pouco mais
me preparei para o final que chegava
e enquanto ia piorando

quarta-feira, 23 de março de 2016

Ar

Falta ar
falta ar



falta

ar


há uma enorme bola pressionando
queimando
não deixando



ar

falta ar



houve outra época em que o ar faltava pra todo mundo

agora sumiu o ar novamente

falta
ar


faltar

sexta-feira, 4 de março de 2016

subjeito retilíneo

Acepilha, aplaina, emparelha
retira as rebarbas e deixa liso
é bem melhor que as coisas saiam sempre no padrão
padrão podre
acalma teu entusiasmo, não deixa sair
não mostra
disfarça
segura
alinha
acepilha, aplaina, emparelha
não formes paroxítonas, nem oxímoros
e lembra que o dinheiro não trás
apaga isso
não rebate
não mostra
faça a farça e disfarça
trate de retirar as rebarbas
alisa
desamasse
desamarrota
ajusta, mas não experimenta
não testa, aceita
não acolhe
não escolhe
não encolhe
não olhe
acepilha, aplaina, emparelha
mas não mexe
deixa como está
sempre foi assim
e assim sempre será.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Temporal desideia

O Eco ensina a reverberar honestamente mostrando como reverberam os delays desonestos que o subterrâneo de vez em quando... e a gente fica aqui, com cara de quem caiu da mula empacada, sedento por espaço, e acaba tentando voltar ao lombo da mula, mas é ela quem nos instrui no final das contas e acabamos por carregá-la nas costas e aceitamos que ela paste e poste suas fotos descabidas depois de mais uma aula sobre a memória do peixe e vamos seguindo, um passo de cada vez, rumo à trazeira do trem que dá ré.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Fui no Psicodália e não voltei de lá

Fui no Psicodália deste ano e não voltei de lá. Parece estranho o que escrevi no período anterior, pois há um estranhamento sintático aí. E antes que alguém queira fazer a brincadeirinha interna, não me chamo Wagner. Aliás, ninguém precisou gritar o meu nome. Mas o que descrevi é real e direto, uma vez que neste momento estou distante de Rio Negrinho/SC uns mil quilômetros, mas isso é meu corpo, meu raciocínio lógico e minha necessidade diária de tocar nas coisas. No que se remete à realidade concreta do que realmente vale na vida, no que diz respeito aos instintos e a objetividade cardíaca do amor, nisso eu fiquei. Não saio mais dos degraus do ambulatório, onde experimentei assistir um show num palco enquanto o som era passado por outra banda no outro. Fixei raízes pertinho da barraca, onde reencontrei amigos e amigas que não via desde outras existências, seja para tomar um gole, seja para a brasa do churrasco vegano, seja para o chimarrão na minha cuia uruguaia.
Fiz muito amor no Psicodália. Calculo que tenha feito amor com umas 6 mil pessoas, incluindo o pessoal que se apresentou e o que organizou tudo. E foi maravilhoso!
Também tive muitas experiências, as quais sempre despertavam minha vontade, mas não fazia por falta de oportunidade legal. A que compartilho aqui é a minha primeira vez com uma saia. Há tempos que tinha vontade de vestir algo que me deixasse sentindo mais livre e após encomendar o desenho para a afilhada e a costura para a mãe, acabei experimentando a maravilha que é poder sentir o arzinho por baixo da roupa e os cuidados especiais ao sentar numa escadaria. E valeu muito a pena. Recomendo, em especial, aos conterrâneos que pensam que dentro de uma bombacha se cria o bicho solto. Sou muito mais a saia nesse quesito, além de nos dar um pouquinho de noção do que passa uma mocinha que "precisa aprender a ter modos", como nosso machismo de cada dia tortura as mulheres desde a infância.
Ano passado, como choveu bastante durante o festival, acabei não desfrutando de tudo que gostaria. No entanto, este ano o tempo foi ensolarado e descobri que também não tem como fazer tudo. Por isso, tomei a decisão de fazer tudo, ainda que o Psicodália faça sua pausa para hibernação e só desperte lá pelo meio do ano para nos animar com a contagem regressiva e com as surpresas sobre as atrações, resolvi que ficarei lá. Não voltei e não voltarei de lá.
Quanto às vivências que tive, minhas impressões mais detalhadas e eticéteras, isso é coisa para um outro post, que pretendo fazer se e quando voltar. Também pretendo revisar este texto, já que no momento as minhas mãos tocam no teclado do notebook em Pelotas, RS, e eu estou na serra catarinense.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Acrós-tico

Muitas vezes, nos deparamos com pessoas
E essas pessoas não são exatamente pessoas
Umas até são, mas outras não
Pode ser que sejam, mas não as considero exatamente assim
Até porque costumam agir como animais irracionais
Uma estupidez que reside nelas!
Devido a tanto desgosto que temos
Estou pensando em evitar
Ou quem sabe me abster
Cada vez que uma estupidez é dita -
Uivam as pessoas estúpidas, digo eu -
Lhes diria mil argumentos e seria em vão.
Ou, quem sabe,
Seria o caso de mandar-lhe fotos do Gonzo!

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

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