sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

pipoca dentro do peito

meu coração tá espremido contra o concreto. não é por coisas do coração, mas por culpa de gente que não tem coração. e é assim, mesmo. olhar pela janela e enxergar a cada dia novos pedintes, quase todos pretos ou quase pretos, disputando um espaço pra cuidar carros ou atrapalhando as pessoas que não enxergam que aquela pessoa que tá ali na sua frente é um espelho pro futuro, porque todo mundo tá tomado no cu, mas quem passa pelos pedintes e acha que pertencem a uma outra espécie acha também que por isso jamais tomará no cu, no que estão muito enganados. essa visão que tenho ainda me faz agravar a situação, pois me coloco a pensar que o cara que tá ali pedindo tá fudido, porque precisa depender da boa vontade do outro, o que é praticamente impossível de conseguir; o outro tá fudido porque não sabe que logo vai estar disputando espaço na marquise, porque acha que porque consegue fazer três refeições por dia é mais bem sucedido do que o pedinte. daí eu me ponho a observar isso e achar que só eles estão fudidos nessa história. daí que tudo isso espreme o coração contra o concreto

sábado, 25 de novembro de 2017

o clichê da clepsidra

 o tempo é um clichê
    que os filósofos
       e os amigos
            usam
              pra
              esco
             ndere
           m a inca
         pacidade hu
       mana de super
    ar nossos conflitos

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

a língua no divã

- minha missão é tragar o abstrato e atenuar o sono
foi isso que disse ao analista, depois de algumas horas de silêncio perturbador no qual nos encontrávamos. eu, sentado num conjunto de almofadas com cheiro sufocante de mofo, mirando a fumaça do incenso. ele, numa cadeira de mesa de bar, os olhos direcionados ao meu nariz
- talvez seja uma uma vontade de falar só por falar e por isso você tem dito essas coisas - abrindo uma caixa com vários rótulos de embalagens antigas e colocando-os, um a um, no lugar do meu rosto. enquanto isso, eu estava firme e categórico
- eu vim justamente pra sorver o que tem nome, mas está fora da capacidade dos sentidos físicos do ser humano em perceber e fazer com que exista somente uma determinada preguiça, mas sem deixar que as pessoas adormeçam
- e qual é a finalidade disso?
- talvez seja uma necessidade sem uma finalidade específica. aliás, a finalidade é algo que preciso inalar
- onde está tentando chegar?
- ora, o senhor é o psicólogo! é pra isso que vim parar aqui!
- mas pelo que estou percebendo, o seu problema não é para um psicólogo, mas para um linguista
nesse momento, comecei a encarar meu terapeuta com um ar de indignação
- quer dizer que estou há horas buscando uma resposta de quem não a tem?
e é quando percebo uma leve perda de entusiasmo no olhar do sujeito
- quem foi que disse que eu teria alguma resposta? aliás, você sequer me deixou transparecer que teria alguma dúvida ou pergunta
uma frustração enorme me abateu e eu suspirei fundo
- veja, havia uma questão no ar e eu a traguei
a conversa já estava entediante, fazendo com que o analista ficasse com os olhos pesados
- por favor, doutor! não vá dormir justamente agora que estou a lhe fazer demonstrações das minhas afirmações, que por vezes aparecem como dúvidas
e daí o tempo passa para o agora e futuro
o terapeuta fecha os olhos e suspira fundo
faz umas anotações numa folha e me entrega, onde lerei:
- tarefas: escrever numa folha tudo que for abstrato tragado, com hora, local e testemunhas; deixar os outros descansarem em paz; procurar um profissional da área das linguagens para interpretarem e ajudarem a encontrar respostas para as dúvidas e questionamentos que descobrirá
amassarei o papel com toda a força que as minhas mãos poderão utilizar, mas o guardarei no bolso. sairei do consultório resmungando e tragando incógnitas

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

tudo é sempre outra coisa

juro que vim aqui escrever um poema, mas só me saem coisas estranhas, sem sentido. acho que tá na hora de parar de fazer sentido, se é que alguma vez eu fiz. talvez alguém da academia conseguisse remexer nas coisas e encontrar algo que o valha, mas tenho certeza de que nada daqui desperta interesse. é como a história da minha miga formiguinha, que encontrei encolhida num canto, depois de fazermos amizade e eu sonhar que ela havia se tornado gigante. é como o conto da alice na páscoa. mas o fato é que eu queria muito escrever um poema, daqueles tão enigmáticos, cheios de significados, que todo ano sai uma tese apontando uma nova forma do que diz ali. em vez disso, saem repetições, aliterações surradas, joguinhos inúteis de palavra e significados minguados. no máximo, um clichê de uma declaração de paixão travestida de historinha de gato sonhador, ou um passeio de automóveis. mas nada de poético. talvez devesse começar a tentar algo mais concreto, como um viva a vaia, ou algo mais fabricado, numa lata de sopa fotografada. quem sabe eu comece a me apropriar de coisas alheias e invente algumas colagens. pode ser que assim eu consiga ser poético, embora não inventivo, como a poesia é. aliás, a poesia não está morta, como os esforçados fabricantes de livros gostam de fazer parecer.  a poesia tá no auge, mas fora das palavras escritas. também é possível que a poesia esteja no espontâneo, na escrita sem freio e sem revisão, sem aquele planejamento e aquelas maluquices de ficar anos trocando letra por letra num caderno rabiscado. se ela tá no léxico, é bem provável que seja assim, na falta de talento, daí que eu tenho alguma chance, ou no que não é. mário quintana escreveu que tudo é sempre outra coisa, então, quem sabe, chegou a hora de fazer outra coisa.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

era pra ser uma canção de amor

não sei se rio ou se largo sua mão
nem se espero ou trapasso
se transpasso
e você nem aí
fazendo pose de bem-me-quer embrutecido
mas uma causa é certa: o que sinto
cinto, sinto
aperta e dá agonia

não sei se apago ou afago
se perco ou já perdi
se cheguei ou nem fui
se rio ou se largo sua mão
se ultrapasso as linhas
e você aí, como quem mal-me-quer delicadamente
como tudo que você prepara
- é a fome e o desejo

outra certeza: nada tem mais vida que a dúvida
por isso acabo esperando eternamente
por um sinal que talvez jamais venha,
senhora Liberdade

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

papel transparente
picado
é pecado
é confete

fogueira flamando
pirada
é pecado
é enfeite

agonia no asfalto
aguardente no barro
aguardando o pecado
pescando na lona
piscando na luna

papel picado é pecado
enfeite é pecado
confeite é pecado
fogueira é redenção pra lunático
sempre há um assunto fresquinho pra gente se debruçar e ficar tempos e tempos comparando com um já caduco. uma atualizaçãozinha aqui, uma reverberaçãozona mais a diante e não há oxalá que atualize as pessoas em relação às coisas. o ruim disso tudo é a necessidade de dar explicação pra tudo, desde um nome científico até pra um neologismo ou expressão idiomática. e tudo se desmancha no ar, de tão sólido. e há um certo ar de fracasso nisso tudo. creio que fracassamos ao tentar dissimular. a gente vai fingindo ser outra coisa, mas é tudo o mesmo com roupa remendada ou nova - muitas vezes comprada em brechó. particularmente, eu queria que as coisas continuassem todas do jeito que são, mas que as pessoas mudassem. e que essa mudança fosse um tanto de troca de uns pelos outros, quanto do jeito que cada um é. seria tão simpático se outros habitantes chegassem por aqui com assuntos comuns, mas hábitos diferentes.
mas por enquanto, não podemos trocar, nem mudar as pessoas. uma lástima. que Oxalá tenha piedade.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

poema comum

Agarra as flores que estão no copo
 e lavra a tenra terra
 pra onde elas irão
 Morde o lábio, respira raso
 aprofunda as raízes envenenadas do amor
 obstrui o labirinto formado pela passagem da água
 Nada disso adiantará
 É preciso bem mais que esforço
 pra limitar o desejo
 onde já jaz a insatisfação líquida.

sábado, 4 de novembro de 2017

continhos carinhosamente tensos

um velhinho transita com sua bengala do outro lado da rua, gritando coisas ininteligíveis, mal vestido, pois com roupa curta no frio. enquanto isso, uma senhora bem vestida, com suas calças sujas de mijo que usa pra esquentar nas noites frias, um blusão furado pelos cigarros e um casaco sem botões, pés quase descalços, senta-se no meio fio ao meu lado. ela tira do bolso um pedaço de pão e oferece a mim. eu agradeço, olhando nos olhos ternos da minha benfeitora, e digo a ela que minha fome não pode ser saciada com comida, mas com algo maior que ela já estava proporcionando a mim. ela carinhosamente me abraça e eu sinto uma vontade quase incontrolável de estrangulá-la, pois sinto uma gratidão tão grande, que quero muito retribuir. porque morrer de morte matada é uma honra no mundo em que estamos. mas não sou uma pessoa tão boa assim e não sei expressar corretamente a gratidão.

no parque, crianças rastejam à procura de pedras que brilham no escuro, mas só conseguem encontrar umas poucas raízes secas. à medida em que o tempo vai passando, as crianças vão adolescendo, ficando disformes e famintas. até chegar ao ponto em que começam a devorar umas às outras, na busca de saciar a fome e, principalmente, reunirem-se em uma pessoa só. ao sobrar somente uma, deixa de rastejar e começa a andar com os joelhos no chão e as mãos na cabeça. vários apedrejamentos, corpo múltiplas vezes violado pelos transeuntes bem intencionados, acaba por receber o maior presente de todas as vidas que carrega em si, na forma de um atropelamento por um veículo oficial.

falha mecânica leva à alcova o filho de alguém que não importa, a não ser para as estatísticas. a criança exercia suas atividades profissionais como gostava tanto, abrindo e fechando a máquina de fabricar sonhos, quando um sonho escapou e lhe atingiu. o menino descobriu, então, que era capaz de imaginar-se com um sorriso no rosto e perdeu o controle de si, indo parar na máquina que fabricava ilusões, muito parecida com a qual trabalhava, e sofreu farturas múltiplas de euforia, sendo levado com urgência ao refeitório, que também funcionava como banheiro e enfermaria, sendo medicado com antiempolgante por acidente, deixando-o completamente paralisado. a família não foi notificada, pois os irmãos precisavam terminar o lote de esperança de última geração, enquanto os pais ocupavam-se em cuidar que os meninos ficassem separados das meninas, tarefa pela qual recebiam meio quilo de ração por turno trabalhado, descontado o horário de beber água.


coisa-significado-coisa

muda o assunto, os sacrifícios continuam. não há nada de novo, de novo. de novo, a esperança dá com a cara na porta da angústia e o que aparentemente deveria ser um período fértil é de total desertificação. sangrar não é para os fortes, nem repara o frasco. então, preparem-se: vem na sequência um mundo cheio de chavões, lugares comuns, frases imperfeitas e trocadilhos. e nem vocês, nem eu, nenhum de nós será capaz de passar incólume e respirar nesse ar rarefeito de rimas sórdidas e vocabulário pouco habitual, mas vazio de conteúdo. a merda já não significa a própria merda. chegamos ao ponto em que temíamos há tempos e agora não sabemos como sair. e não temos direito de pedir ajuda a quem quer que seja, nenhuma divindade ou espiritualidade irá nos ajudar, porque fomos nós que não ouvimos os avisos.
e fora da representação estão as coisas. se temos problemas com os nomes, o mesmo se passa com elas. perdemos o controle das nossas vidas justamente por causa disso e não temos mais tempo para ter esperança. o tempo é de fazer as coisas trabalharem a nosso favor. o problema é que perdemos muito tempo aprendendo a dar nomes, falar das virtudes, desqualificar e comunicar sobre, que esquecemos como funcionam na prática. temos que aprender a sair do significado e partir pra concretude, pra praticidade e pro pega pra castrar.
de minha parte, já que não aprendi nada além de coisificar palavras, me resta a prisão perpétua das coisas nomes, pois que palavras também são coisas e pra que todos possam cuidar das ruas, das casas, da comida, do sanitário, e de tudo que nos faz idiotas neste mundo, alguém precisa tomar conta dessa desgraça na qual foi jogado o ser humano.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

desenvolvi uma série de padrões pra não usar nenhum deles, porque o trabalho árduo empregado no planejamento, no ensaio e erro, nas epifanias e nos ajustes práticos é que fazem tudo na vida valer a pena. não que eu deixe de gostar do resultado final ou que o considere descartável, mas porque ao final as coisas perdem um pouco a graça e se o produto pronto for o que mais importa, provavelmente a vida deixe de valer a pena ao terminarmos. do contrário, sempre se terá a intenção de repetir, retentar, tentar outra coisa e dar capo. e quanto mais longa a jornada até atingir o ponto ideal, é importante que o sujeito tenha empregado a vida toda ali. por isso, tenho certeza de que as minhas realizações só serão concretizadas e acabadas no meu leito de morte, porque aí sim estarei plenamente satisfeito e contente por terminar. do contrário, seria torturante e humilhante viver uma longa vida à sombra de uma grande conquista na infância ou adolescência. melhor sempre ter algo errado pra consertar e refazer.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

tá ali a parede, toda clarinha, limpinha. uma formiga perdida transita, à procura de um caminho. mas não há caminho. a formiga não vê nada além da tinta solúvel em água, na cor creme. não há sequer uma rugosidade. nada. uma enorme parede cuja única ~imperfeição~ seria a de servir de chão para uma única pobre formiguinha preta.
mas há possibilidades: a época é dos ventos e a qualquer momento a nossa amiguinha pode ser jogada ao chão, onde há mais opções de trilhas.
e a formiguinha segue
aguardando o sopro do vento
enquanto pisa na parede chata e monocromática
enquanto eu estou aqui
só conseguindo torcer pra que chegue logo esse vento
ou que alguém chegue e esmague a coitada de uma vez
e acabe com a tortura da falta de rumo da pobre
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