segunda-feira, 1 de maio de 2017

criptografia

resigna-te ao pó
de onde vieste
e ao qual voltarás
ao adubo do asfalto
e aos pés de rosas secas

desconecta-te de tudo que é cândido
e reconstrói a ofensiva
~ mãos à obra ~

mãos às sobras
calejadas mãos sombrias

desintegra-te no ar
de tão sólido que és
vira pó
vira tormento
e desfalece

desempacota a candura
e joga no fogo toda essa penúria
~ às favas com a obra ~

mãos às sobras
mãos geladas à sangruia

domingo, 30 de abril de 2017

a-cróstico dístico policromático

tem dias em que a necessidade é feita pelo prazer. hoje eu tô só por uma dose daquelas que fazem a gente relaxar, ouvir a música do estalo das cadeiras e reunir todas as personalidades numa só. cada vez que uma coisa dessas acontece, o sentido começa a se fazer sozinho, sem o esforço mental que normalmente precisamos.
lentamente, quero que o meu corpo vá levitando, que o chão torne-se fofo, que a cama seja gelatinosa. só preciso de uma pequena dose e logo desaparecerão os problemas sofridos graças à ganância dos ricos e os desamores da vida. depois de tomar a dose, tenho certeza de que a vida ressurgirá na plenitude do colorido da chuva, ou do prateado da pradaria.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

recado recebido, recado repassado

recado recebido
a arte é um ofício
assim como consertar relógios parados
e apertar botões em fábricas
não há enfeites

por isso, são preferíveis o álcool, o ópio, o ácido
o amor, o sexo e o termogênico
porque são capazes de fazerem a mola desencolher
e o reboot é só um foda-se

e poemas forçados não são poemas
escritos pretensiosos como este
costumam ser tão nocivos quanto apertar o botão azul
ou reciclar plástico
recado repassado

quinta-feira, 20 de abril de 2017

depois da frente fria, a preguiça

e de repente, depois da frente fria, veio o gelo interior. calafrios, dores inexplicáveis nas articulações e uma sensação de que tudo já deu o que tinha que dar. seria o momento certo pra tomar uma atitude adiada há muito. mas não seria possível, já que era preciso lavar a louça antes e não deixar nada para trás. e aí está: uma vida salva pela preguiça!

e de repente veio a frente fria

e de repente veio a frente fria afiar suas garras no meu apartamento. chegou acompanhada de uma garoa fininha e gelada, anunciando que é a época de se foder na vida, de olhar pra baixo e se enrolar nos cobertores. é a época de pensar que o cara que passava bêbado do outro lado da janela agora estava por aí. aquele amigo ocasional, que pedia pra despejar uns goles de cerveja numa garrafinha de água mineral, provavelmente estava mijando nas próprias calças pra aquecer o corpo por alguns instantes. é a época de comemorar porra nenhuma, a não ser a ausência do suor. então veio a frente fria pra mostrar o que é possível, sim, se desfazer daquela vontade de sair na rua pra dar aquela caminhada noturna no clima agradável. veio pra foder com a vida dos solitários, dos mendigos e de quem não tem nenhum tipo de aquecimento em casa. com ela, chegaram as músicas melancólicas, o desapontamento de um copo de água morna e uma vontade enorme de acender uma fogueira no meio da sala. aquela vontade de sentar no banco do parque ao sentir-se como um pato morto e secar-se no sol gelado. o ateísmo acompanha a frente fria, assim como a incredulidade na humanidade. e de repente veio a frente fria

terça-feira, 11 de abril de 2017

o inverno dentro do peito

era pra ser uma canção
mas a preguiça resolveu
que não


cão que morde é de lata
lado a lado ao lada
carro caro
coisa russa
reversa
conversa!
desconversa e segue o urso
que ladra, mas não morta
que morda! que merda!

mas se tu soubesses o inverno que faz aqui
dentro do peito
não teria inventado essa fuga
e se a cada passo que dei
por teres me deixado a pé
até descobririas meu desejo

mas cão que morde vira lata
ladra ao lado da ladra
e, caro carro,
minha vida está russa
reinventa
e diz que não vai conversar
sobre a ursada que sofremos
do lado de lá

sábado, 8 de abril de 2017

se drummond escrevesse um poema falando de mim
eu me chamaria joaquim
não sei formar quadrilha
nem me fingir de joão
nem pra pinto fernandes eu sirvo


sexta-feira, 7 de abril de 2017

tortura

o tempo tortura, com seu conta-gotas do caralho a quatro. a gente fica esperando a próxima gota, sempre achando que será de água fria, mas tem vezes em que é chuva ácida, trazendo cinza de vulcão ou um granizo enorme a estocar no crânio. e a gente dorme mal, não se alimenta direito e acaba recorrendo aos vícios. mas o tempo tortura, pela angústia que alimenta e nos faz querer apressar as coisas. hoje, mesmo, deu vontade de apressar a visita que os desenganados recebem dos antepassados quando a hora chega. porque o tempo tortura

quinta-feira, 6 de abril de 2017

por um novo período literário

tô escrevendo um poema revolucionário, cheio de palavras difíceis e versos irregulares. as rimas são diferentes, não mais por semelhança sonora, mas por aproximação semântica. talvez seja uma atualização dos luzíadas, mas ainda não tenho muita certeza, já que não entreguei a nenhum especialista. na verdade, não entreguei a ninguém, porque o poema pra ser revolucionário precisa chegar chegando, de surpresa, fazendo estardalhaço. não vou transcrever nenhum trecho aqui, porque vai que algum espertinho resolva se apropriar e registrar minha ideia original, genial e revolucionária. mas posso garantir: trata-se do início de uma nova vanguarda, um novo movimento, que talvez eu chame de pós-pós. já ultrapassamos todos os póses e creio que é chegado o momento de alguém romper com isso tudo, mas ao mesmo tempo resgatar. então, creio que o nome do movimento seja tão genial quanto o poema que estou escrevendo. falando nele, digo que não trata de sentimentos, nem da questão social, muito menos é metapoema. é um pós-não-poema, que contém inovações nos silêncios, sarcasmo metafórico e escárnio humanizatório. a mim, pouco importa se a poesia morreu em josé paulo paes, mário quintana, drummond e leminski. agora chegou o momento dos que estão além do tempo e do espaço ficcional e lírico! o período literário chamado pós-pós está a caminho e é melhor começarem a pensar nas questões do enem!

quarta-feira, 5 de abril de 2017

vendo

desacostumei de olhos nos olhos
tá tudo errado, tá tudo errado
planejar, cumprir metas, cuidar milimetricamente de cada ato ou ação, tudo isso é entediante, estressante e humilhante, como tentar armazenar água num filtro de café, ou aparar um gramado com navalha
por isso, prefiro a desorientação e o disperdício, especialmente do essencial
daí que acabei desacostumando com o olho no olho
justamente porque sinto a matemática no olhar do outro
e isso é desolador
tá tudo errado, tá tudo errado

comecei a vender algumas coisas as quais não tenho usado
minha paciência, minha solidão, meu prazer
tudo porque estou entrando para o grupo de pessoas que precisam do feijão e já estão dispensando o tempero
vendo tudo
com os olhos que não batem nos outros olhos
só não vendo minha dignidade, porque alugá-la me trará mais retorno
e é o meu bem mais dispensável



segunda-feira, 27 de março de 2017

a distopia (ou a desesperança)

era a era de balizar o basilar, mas sem o registro régio, ainda que parecesse pleonástico. mas tá, não vou encher esse texto de frases de efeito ou aliterações imprestáveis, só pra deixar ele bonitinho. trato do período em que precisávamos botar as tremas na linguística, mas sem precisar das atas. nada de conformidades e regimentalismos fanáticos. tudo precisava ser rediscutido. mas a língua padrão era insuficiente, então, passamos a discutir tudo através da estética do curto e grosso. chegamos a um consenso: estávamos fodidos e a merda era tão grande que precisávamos falar muito tempo e desabafar bastante, ainda que fossem coisas sem sentido aparente. estávamos fodidos, porque a arte popularizada vinha empacotada, cheia de metáforas desnecessárias, ou através de clichês, que mais pareciam chicletes mascados. a merda era tão grande porque aqueles que pretendiam mudar as coisas gostavam mais do próprio discurso do que o que ele significava. costumavam citar grandes pensadores, mas na hora de botar a citação em ação, tudo era "na prática, a teoria é outra". uma bosta! cada um queria receber o seu quinhão de amor, mas os mesmos cada um não queriam ser os doadores desse amor. queríamos que só os outros fossem honestos. então, discutimos e chegamos ao consenso, como falei. todos concordaram que do jeito que estava não dava mais pra ficar. decidimos mudar tudo. estávamos todos de acordo que deveria ocorrer a mudança. fizemos virar lei, que jamais foi cumprida.

sexta-feira, 24 de março de 2017

dê um rolê nos laboratórios

o laboratório era pra estar cheio de amor. claro, me refiro aos laboratórios das ciências naturais. mas ali só se encontra assepsia e método. tudo no devido lugar, organizado e burocrático. nada de risos, abraços e declarações sentimentais. a ciência tenta afastar-se do coração, por alguma razão que o próprio coração desconhece. deveriam tocar novos baianos dentro de todos os laboratórios! novos baianos e raça negra. assim, poderíamos ter esperança de que, um dia, as descobertas nos dissessem mais respeito e nos fizessem mais sentido!

sábado, 18 de março de 2017

retorno

para M. H., que me botou de pé
e quem quero botar de pé também
que provavelmente irá, mas que tenho certeza de que voltará
pra encher uma mesa comigo


não falta amor: faltam coisas que permitam o amor. falta que o mundo permita. falta que a brutalidade do asfalto permita o nascimento da flor. falta meu rock'n'roll no teu tecno. falta eu com minha guitarra no teu sampler. falta meu thc no teu lsd. falta nosso sexo sem limites e sem restrições. falta o teu "fico encabulada" no meu "te acho maravilhosa!". falta a gente se encontrar novamente. falta independência. falta ar. quando os olhos batem e um beijo entre a bochecha e o canto da boca...
falta nosso banho de ervas
falta a gente junto
falta provar que gêmeos e câncer dá certo, sim!
falta o teu francês no meu espanhol
me fazes falta

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

das convicções sem provas

dizem que a verdade passeia pelas cabeças de muitas pessoas, deixando um pedacinho de si em cada uma delas. dizem, também, que cada pedacinho da verdade está totalmente nu e cada pessoa o veste ao seu gosto pessoal. é raríssimo encontrar alguém que tente primeiro juntar o maior número de pedacinhos pra ver qual roupa combina melhor ou, ainda, se não é melhor deixar tudo exposto para que cada qual perceba da forma mais próxima possível daquela entidade que vagueia pelas sentenças. a maioria esmagadora prefere o mais fácil: cobrir a nudez repugnante do seu pedacinho da verdade com aquela sua roupa fabular. daí nascem as injustiças.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

hoje, encontrei e perdi uma amiguinha

uma formiga bem pequenininha corre pelo chão do meu apartamento. penso em gravar um vídeo dela, mas algo me detém. fico observando por um bom tempo, enquanto o bichinho corre pra lá e pra cá. talvez procure uma saída, talvez comida. talvez os dois. fico tentando adivinhar, enquanto faço perguntas em pensamento: "o que tu procura, amiguinha?"; "pra que tanta pressa? para um pouquinho, que eu tenho açúcar na dispensa e te coloco um punhadinho perto". imagino que ela faça o mesmo: "moço, como eu faço pra chegar ao térreo?"; "onde fica o vaso de plantas mais próximo?". percebo que estamos incomunicáveis! fico preocupado com a solidão da minha amiguinha e que, por mais que eu me aproxime dela e tente ajudá-la, certamente assustarei a pobre e solitária formiguinha. por um instante, chego a pensar em esmagá-la e livrá-la da solidão e da angústia de não encontrar o que procura. mas me dou conta de que é a única vida animal presente comigo no momento e me solidarizo com ela. penso em dar-lhe um nome. talvez lucinha, que pode servir também como apelido. mas acabo desistindo e preferindo chamá-la só de amiguinha, pois já estou quase adormecido e não me vejo em condições de bolar um nome que combine com ela. depois de um tempo, já com os olhos muito pesados, quase fechando, começo a desconfiar de que estou sonhando e que em instantes essa formiguinha se transformará numa formiga gigantesca que sairá derrubando tudo por dentro de casa, pulará pela sacada e irá perambular pelas ruas. um grito vindo da calçada me desperta. como perdi a minha amiguinha de vista, corro para a sacada, temendo estar sonhando e que ela estivesse ainda crescendo, a ponto de desafiar um cão de rua que vive nos arredores. mas foi só uma brincadeira entre amigos bêbados, tentando usar a voz em falsete. volto ao sofá e encontro minha amiguinha encolhida num canto. espero que esteja dormindo, mas que não sonhe que eu encolhi ao seu tamanho.
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